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A NOSSA HISTÓRIA ...

MONTE DE FRALÃES

 

A freguesia

Esta freguesia fica quase no extremo sul do concelho de Barcelos, ao lado de Viatodos, Silveiros e Chavão; pelo poente encosta-se ao monte d'Assaia, onde nasceu e donde recebeu parte do nome. Desconhece-se o étimo de Fralães, embora provavelmente derive dum antropónimo gótico.

Monte de Fralães tem uma história particularmente rica e diversificada. No seu princípio, sucede à cidade-citânia de Lenteiro, tendo tido por isso a sua igreja original no cimo do monte; quando desceu para a encosta e planície, foi sede do Solar dos Correias. Esta família conseguiu que a sua «honra» evoluísse no sentido municipal e por isso, entre meados do século XIV e 1836, existiu o antigo concelho de Fralães, que abrangia também Viatodos e parte de Silveiros.

Cerca de 1610, a mesma família dos Correias criou a Confraria da Senhora da Saúde, que teve períodos de notório esplendor e que subsiste na actualidade.

Mais rapidamente que outras vizinhas, Monte de Fralães afastou-se do seu passado predominantemente agrícola, sendo hoje uma freguesia bem inserida num presente mais voltado para o comércio e indústria.

Na sua história são conhecidos alguns nomes de figuras célebres. D. Paio Peres Correia teve uma dimensão peninsular, que Camões reconheceu n'Os Lusíadas; o compositor e pianista Luís da Costa levou o seu nome muito para além-fronteiras, chegando mesmo à América. O historiador barcelense Pe. João Rosa paroquiou-a por breve período; o Pe. Jácome Dias, quinhentista, foi como que o refundador da freguesia, etc.

 

O Concelho de Fralães

Embora se saiba que remonta ao século XIV, na actualidade quase só se conhecem documentos deste concelho a partir de 1700. O Pe. Carvalho da Costa falou dele com entusiasmo; descreveu assim a eleição dos edis:

Em dia de Janeiro de cada um ano se ajuntam os Vassalos nesta Casa, & o senhor, que ali está assentado em uma cadeira, manda arrumar a vara ao juiz velho, & de entre todos escolhe o que lhe parece, & lha mete na mão para que sirva o ano que vem, dando-lhe juramento de que fará justiça, & lhe passa carta de ouvir, selada com o selo de suas Armas, & sem mais fica feito Juiz ordinário, & dos Órfãos: este então faz ali mesmo eleição com o povo dos Vereadores, & mais Oficiais, que com ele hão de servir aquele ano. No fim vêm umas fogaças, que costumam pagar uns caseiros destes senhores da aldeia de Campesinhos, freguesia de Santa Maria de Viatodos, & todos as comem, & bebem o vinho, que o senhor lhes dá, & se vão embora. Do juiz se apela para o senhor, & deste para El-Rei; sem embargo de lho impugnarem, sempre tiveram sentença em seu favor; vem escrever-lhes um escrivão de Barcelos por distribuição.

Esta descrição é confirmada pelos livros do concelho. Entre as duas dezenas deles que até nós, merece referência especial o Livro dos Acórdãos – espécie de regimento da câmara – e os Livros das Actas, onde se colhe por exemplo abundante informação sobre o agitadíssimo período das Lutas Liberais.

Especialmente activo na sede desta instituição esteve o tabelião, que era procurado por gente de muitas freguesias das redondezas e mesmo de longe.

 

A Confraria de Nossa Senhora da Saúde

Criada cerca de 1610, o documento mais antigo que atesta a existência da Confraria de Nossa Senhora da Saúde é o actual cruzeiro paroquial, que remonta a 1626. Em meados do século XVIII, a irmandade recebeu um avultado legado que lhe permitiu aumentar a capela – actual igreja paroquial – e colocar o belíssimo retábulo rococó do altar-mor. Tendo atravessado um período difícil nos anos finais daquele século, que se prolongou pelas primeiras décadas do seguinte, recuperou depois, sendo muito florescente entre, aproximadamente, 1860 e 1940.

À sombra desta devoção secular, organiza-se actualmente uma peregrinação anual das freguesias das vizinhanças ao santuário mariano de Nossa Senhora da Saúde.

Como interessante curiosidade, a contabilidade da irmandade regista a visita duma personagem régia não identificada, em 1853.

Cerca de 1900, Barbosa Campos cantou a Senhora da Saúde neste soneto:

Senhora da Saúde, flor mimosa

Na vertente da serra, entre os abrolhos:

A tua branca ermida prende os olhos,

Os corações tu prendes, Mãe formosa!

Lá em cima és estrela radiosa,

És nossa guia neste mar de escolhas,

E ouves as queixas que almas sem refolhos

Vão contar à tua alma carinhosa.

Salva-te a cotovia do alto monte,

Seus gorjeios te envia o rouxinol,

Louvores reza-te a vizinha fonte...

Das nuvens da manhã sobre o lençol,

Beija-te o sol surgindo no horizonte

E tu brilhas mais linda do que o sol.

 

A cidade-citânia de Lenteiro

O nome desta cidade-citânia vem nas Inquirições de Afonso III. O reguengo do monte d'Assaia confinava com a «porta da cidade de Lenteiro» – «per portam civitatis de Lenteiro».

As suas ruínas impressionarem muito o Pe. Carvalho da Costa; visitou-as também Martins Sarmento.

Mais para norte, já em terreno das Carvalhas, há no monte um tholos e umas gravuras rupestres, ambos antiquíssimos e que tinham sem dúvida estreita relação com a citânia.

Relação com a mesma citânia teve também o esconderijo de fundidores donde foram recolhidos, em Fonte Velha, os conhecidos «machados de Viatodos», de bronze.

Na vertente nascente do monte, existiu um palácio romano. Aí terá ficado igualmente o primitivo Solar dos Correias.

 

D. Paio Peres Correia

D. Paio Peres Correia, que morreu em 1275, terá nascido cerca de 1210. Presume-se que nasceu na freguesia, já que a ela e aos seus arredores ligam as inquirições a maior parte dos membros da família então existentes. Foi seu pai D. Pêro Pais Correia e sua mãe D. Dórdia Pais de Aguiar.

Com cerca de 20 anos, D. Paio Peres Correia era já membro da Cavalaria de Santiago, em Alcácer do Sal. Tem depois uma ascensão fulgurante dentro da ordem, que assenta nas muitas vitórias que obtém sobre os mouros alentejanos e algarvios. Em boa verdade, ainda antes de conquistar o Algarve, ele era já Grão-Mestre de toda a ordem (desde 1242). Nesta qualidade, serve Fernando III de Castela e o seu filho, o futuro D. Afonso X. Participa nas lutas que se travam na serra de Segura, está depois na conquista de Mula, de Jaén, etc. Um dos momentos cimeiros da sua carreira teve lugar aquando da tomada de Sevilha. A Crónica Geral de Espanha dedica todo o seu capítulo DCCCXXV a Paio Peres Correia ("Paae Correa"); intitula-se ele: "Como o meestre pousou da outra parte do ryo so Esnalfarag"; veja-se este excerto:

Conta a estoria que dom Paae Correa, meestre da cavalaria de Santiago, com seus freires e outros segraaes que com elle acõpanhavõ que eram per todos duzentos e oiteemta cavaleiros, passou o ryo da outra parte e pousou so Esnalfarag, a grande perigo de sy e de suas gentes, ca mayor perigo era daquella parte que da outra de que pousava el rey, ca Abenafon, que a essa sazon era rei de Nevra, estava daquela parte e trabalhava quanto podya por os embargar. E estavam com elle todollos mouros dessa terra e eram tantos, antre os que hy estavam e os que lhe viinham em ajuda da parte do Exarafe, que era maravilha de veer. E por esta razon eram os cristãaos em grande afronta, ca nuca podyam folgar se nõ sempre estar com elles pelejando. E, pero que os cristãaos os vençiam e matavon deles muytos, os que ficavõ e os outros que creciam nunca os leixavã folgar.

Veendo el rey Fernando o gram perigoo em que estava o meestre dom Paae Correa e todollos que com elle erã, mandou allo passar dom Rodrigo Frolles e Afonso Tellez e Fernand'Yvanes. E estes tres levaron cen cavaleiros com os quaes forom muy bõos ajudadores ao meestre e seus freires.

O rio de que aqui se fala é o Guadalquibir, que separa Sevilha propriamente dita de Triana, onde vemos D. Paio Peres Correia mais em acção; a Calle Pelay Correa perpetua aí a memória dos seus feitos.

A Enciclopedia Universal Ilustrada Europeo-Americana avalia D. Paio Peres Correia nestes termos:

Fantasías aparte, es innegable que su nombradía se asienta en una vida militar llena de gloriosos hechos, como lo demuestra el que se le confiase el mando del ejército español en aquel período verdaderamente heroico de la Reconquista.

Fue Gran Maestre de la Orden de Santiago y tanto los monarcas portugueses como los castellanos, se disputaran el honor de tenerle à su servicio.

Pode-se dizer que D. Paio Peres Correia está no escudo nacional, já que conquistou todos os castelos algarvios que nele se representam.

Este montefralanense é protagonista de algumas obras literárias portuguesas e espanholas.

 

Luís Costa

Luís Costa nasceu na Quinta da Porta, em 1879, e faleceu no Porto, em 1960; foi um homem muito viajado e teve mestres famosos. A sua arte de executor era apreciadíssima, tendo colaborado com os primeiros nomes do virtuosismo mundial.

Numa actuação em Londres, em 1922, recebeu da crítica os mais rasgados elogios. Obras suas foram largamente aplaudidas na Alemanha, França, Bélgica e Estados Unidos, tendo sido apontado para reger cursos num grande conservatório deste país.

Sobre ele se escreveu em 1950 que:

Partindo do romantismo em que foi criado, acompanha compreensivelmente desenvolvimento. E assim consegue enriquecer o património nacional com reportório de excelentes produções.

São «lieder», poemetos para piano, sonatas de piano e corda, conjuntos de Câmara. (…)

As suas composições de juventude são do género das deliciosas pequenas peças de Schumann.

Sente-se depois uma primeira evolução para as harmonias de maior riqueza poética, no estilo Brahms.

Mais arde, a influência do impressionismo de Débussy e de Ravel.

Ultimamente um neoclassicismo todo vigoroso. (…)

Parece ignorar-se que Mestre Viana da Mota admirasse a largueza da forma, a riqueza da polifonia e a intensidade de expressão do Quinteto. Que o conjunto Breronel executasse, em Berlim, com grande êxito o Quarteto. Que as restantes peças tivessem recebido fortes aplausos em França, na Bélgica, nos Estados Unidos. (…)

O Norte não tem artista que se lhe compare. Como pianista, professor e compositor, é uma das mais altas e inconfundíveis personalidades do nosso meio, nas últimas três décadas.

(Mestre Luís Costa, palestra proferida no Porto, em 1950)

Em 1995, a Numérica editou um CD com o título de Luiz Costa, Música de Câmara.

 

Dr. Manuel de Figueiredo

Manuel de Figueiredo há-de ter nascido no último decénio de 1800, no Porto, de família abastada, com ascendência próxima ligada a Lemenhe, Vila N. de Famalicão. Fora já seu pai quem adquirira a Casa de Fralães, mantendo assim a família residência no Porto e na província.

Se as suas primeiras obras vieram a lume em Lisboa, lá terá Manuel de Figueiredo feito o seu curso superior e bebido e aprofundado a influência simbolista e neogarrettista que definitivamente o marcará. Da sua produção escrita, avultam claramente duas áreas às quais dedicava a sua atenção de homem culto, a ficção dramática e a crítica de artes plásticas.

Interessado em coisas da história pátria, como é timbre dos entusiastas de Garrett, facilmente se harmonizariam o exercício do seu cargo de Director do Museu de Soares dos Reis, a sua paixão por Henrique Pousão e por outros pintores da geração deste, a escolha do período áureo dos Descobrimentos como espaço cronológico preferido para ficção, etc.

Manuel de Figueiredo escreveu para revistas e jornais e publicou também alguns livros. De momento, parece ser o seu trabalho sobre Henrique Pousão o que melhor resistiu ao desgaste do tempo.

Obras principais: Infanta, 1921, peça dramática; A Monja e o Rouxinol, 1936, narrativa; Mestre João Correia e alguns seus Discípulos, 1946; O barão de Forrester, o homem e o artista, 1964; O Homem Que não Pregou no Deserto, peça dramática; O Pintor Henrique Pousão.

Alguns destes trabalhos são separatas de revistas ou textos de conferências.

 

O Solar dos Correias

O Solar de Fralães foi o Solar dos Correias desde o séc. XII até ao séc. XVII. A partir de então a família parece ter preferido uma residência em Delães, mais próxima do Porto e certamente com melhores acessos que esta gótica casa. Na segunda metade do séc. XIX, o solar foi restaurado e talvez habitado com regularidade. Em princípios do séc. XX, foi vendido a um capitalista portuense, que por sua vez o vendeu mais adiante à família que hoje ainda o possui.

Neste solar tinha a sua sede o Concelho de Fralães, como antes a sua «progenitora», a Honra de Fralães. Era na sua sala grande que se fazia a eleição das «justiças» – das câmaras – sob supervisão do donatário; a mesma sala há-de ter servido para as reuniões camarárias e para tribunal. O terreiro era a Praça do Concelho.

O edifício não tem a imponência doutros solares. Mas a Torre Senhorial (que vem sem dúvida do séc. XV), um conjunto de portas góticas e ainda uma outra, também antiga, sob a Sala de Audiências, impõem reverência a quem o visita.

No séc. XVI, foi cantado assim:

Farelães é o solar

Que aos Correias deu o ser

E D. Paio veio a ter

O qual fez o Sol parar

Para os Mouros vencer.

Cerca de 1700 o Pe. Carvalho da Costa escreveu sobre ele:

Têm estes senhores (os Correias) aqui a maior Casa das antigas de quantas vi em Portugal, & Galiza, com Torres, grandes falas, muitas fontes curiosas, jardins, & hortas, dilatados pomares de toda a fruta ordinária, & de espinho, & uma grande mata de Carvalhos, & Castanheiros, cousa magnifica.

Camilo Castelo Branco menciona os Senhores de Fralães e o seu solar em O Senhor do Paço de Ninães e na Sereia.

Babosa Campos também escreveu sobre Fralães um soneto que tem, além do mérito poético, algum valor de documento histórico, por testemunhar um momento de degradação do edifício:

Fralães, matrona que possuiu nobreza,

Todo em ruínas, seu solar deplora,

Narrando ainda a prístina grandeza,

Poder e fausto que ela teve outrora.

De quantos bens e honras foi senhora,

E hoje vive esquecida... e na pobreza!

Pelas humildes vestes de pastora,

Trocou as galas ricas de princesa!

Mas assentada, no alto, em seus penedos,

Contempla ainda, como antigamente,

Montes, planícies, rios e arvoredos...

A mão dos tempos que pesou sobre ela

Tudo que tinha lhe roubou... Somente

A deixou sempre assim graciosa e bela.

José Ferreira